A arte de ser escrava dos outros

Amiga “N.”

Li seu último e-mail e fiquei intrigado com as coisas que você disse. Disse que sentia que era seu “dever” de esposa agir daquela forma tão submissa e serviçal. Que sua mãe ensinou você a ser assim e que, agora, nada pode ser feito para mudar.

Me desculpe, mas a meu ver, você não tem mais nada a fazer neste planeta. Sua existência foi desperdiçada. Não me assombro nem um pouco pelo fato de você estar com Síndrome do Pânico.

Não há mal nenhum em se dedicar para os outros. Solicitude é um dom que merece ser cultivado.Mas esta doação pode se tornar uma doença se você não souber se doar do jeito certo.

Talvez seja esta a sua mania. A mania de viver para os outros. A doença de viver para os outros. Na psicologia, chamamos isto de Síndrome do Pânico. Chamo de “Síndrome do escravo cansado”.

E existe um motivo para você agir assim. Você quer se sentir amada. Você quer se sentir aceita. E então, faz tudo para todos... Tudo para agradar, tudo para se tornar uma pessoa indispensável. Que grande burrice você está fazendo em sua vida!

Viver em função dos outros não vai fazer com que você se sinta melhor, nem mais aceita. A princípio, até parece que dá certo. Um elogiozinho aqui. Uma recompensa ali. A psicologia chama isto de “reforço”. Então você recebe um estímulo por ter satisfeito as necessidades de alguém e este alguém te recompensa com uma palavra, um presentinho.

Este é o mesmo princípio da terapia comportamental, uma forma de psicologia ultrapassada e estúpida, pois nega a individualidade e o livre arbítrio do ser humano. Infelizmente ainda existem muitas pessoas que trabalham com isto.

O problema é que seu plano vai fracassar. Na verdade já fracassou. Está acontecendo exatamente o contrário. Pois as pessoas (o cônjuge, os filhos, as amigas) se acostumaram com tanta solicitude. E rapidinho eles começaram a acreditar que você não está fazendo mais do que obrigação.

Até então, você acreditava que as pessoas queriam "você" ao lado delas. Hoje, você descobriu que elas estão atrás é "das facilidades" que você proporciona. Isto pode acontecer com qualquer pessoa que segue sua filosofia de escravidão.

Experimente parar de ser solícito. Experimente parar de “dar aquela força”. As pessoas, imediatamente, irão te descartar. Então, concluímos que elas não querem absolutamente a sua presença. Querem os benefícios que você pode trazer. E para sua desgraça, "você é substituível". Por isto é que, agora, está com tanto medo de ser traída pelo marido. Está paranóica com isto.

Mas você quis fugir desta realidade. E então, fez uso de um outro recurso: Nunca negar nada para ninguém. Nunca dizer não.Na sua cabeça, você acha que não sabe dizer "não". Na verdade, o que você não sabe e viver sem a aprovação dos outros. Porque dizer "não" é ser imediatamente condenada, julgada e colocada de lado.Que pena de você minha amiga! Que situação você se colocou! Repare suas ações: Você é escrava dos outros. Faz de tudo para agradar, para satisfazer os caprichos das amigas, do marido, dos filhos, do netos, bisnetos e, quem sabe, até mesmo dos cachorros e gatos de sua casa.

Ninguém vai te amar mais por ser assim. Estou sendo tão duro porque quero que você desperte. Claro, você vai me odiar quando ler tudo isto. Mas, não me importo. Desde que eu consiga te provocar e te chamar para a "luta", é o que interessa. Você me contou que "a tanto tempo não faz nada por você". Eu simplesmente lamento. Ninguém vai fazer nada por você. Porque ninguém gosta de gente doente, que vive reclamando... Ninguém quer morar com uma vítima. Se você não mudar de atitude, em breve será descartada mesmo.

O que posso fazer? Você se abandonou em favor dos outros. Se tornou uma mulher feia, mal cuidada. Agora que que todos cuidem de você? Pois é exatamente isto que você sente em meio às suas crises de pânico: como um bebezinho desprotegido procurando o colo da mãe.

Eu me recuso a dizer o que você deve fazer. Você sabe o que fazer. De uma certa forma, eu já disse nestas palavras.

Síndrome do pânico é a síndrome da escravidão psicológica.

Declare sua independência. E, por favor, procure ajuda de algum profissional. Este é um problema sério. Quem for te ajudar a sair desta terá que ser um expert. Pois você foi fundo em sua escravidão.

Seja livre. Esteja consciente.

Chris Allmeida

Campinas, 13 de fevereiro de 2004

 

 

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